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ETELVINA

 

(...) A maneira como vestimos, os processos com que comunicamos, os nossos laços profissionais determinam cada vez mais o índice de sociabilidade. A falta e/ou deficiência de relacionamentos significativos (isto é: o défice da rede de relações sociais, quer qualitativas quer quantitativas) provoca esse sentimento de desintegração, disfunção, insatisfação emocional a que se pode chamar solidão...

ANDRÉ COMTE-SPONVILLE («O Capitalismo será moral?») e PAULA MARQUES («A Solidão na Terceira Idade»).

 

Vi que todos os seres têm uma fatalidade de felicidade(...) A cada ser, várias outras vidas me pareciam devidas. A minha saúde foi ameaçada.

RIMBAUD

 

Etelvina Azevedo (81). Foi preciso 'morrer' para criar os filhos (7 ao todo, 5 que sobreviveram), e agora que se aproxima o fim definitivo já não há vontade para uma segunda vida. A crise — ou o que queiram chamar-lhe, porque crise sempre existiu — está a por em causa a própria fé. Para o capitalismo (como dizem Sponville e Rimbaud — e há tanta poesia trágica nas aldeias do interior!) a moral é uma fraqueza do cérebro. Aqui, há pouco dinheiro para investir em iniciativas solidárias. Para os idosos a ameaça da miséria é a dobrar: em muitos casos, já não há dinheiro para comprar medicamentos. Eis o triste resultado da estranha relação que temos connosco próprios, nas nossas preocupações com a vida, com a beleza e com o tempo que está para vir. A exuberância (ou a «fatalidade de felicidade») de alguns é a mutilação de muitos outros. É urgente parar para reflectir sobre isto.

 

PITÕES DAS JÚNIAS
Julho de 2010

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DUAS VELHINHAS MUITO VELHINHAS

 

Maria Dias Carvalho e Maria Teresa.

Cada uma tem a sua história para contar…

 

—O senhor donde é?
—Eu sou de Amarante. Conhece?
—Não conheço, mas já ouvi falar…


Faz-se uma pausa, e vai a dona Maria Dias:
—Então, é de Amarante… Quer que lhe conte um conto?
—Pois conte!


E desfia, sem pestanejar:


«Ó minha bela menina,
De Amarante vem o vento.
Menina que fala a todos
Não pretende casamento.»


—Gostou?
—pergunta ela.
—Adorei!
—Então não acha que é verdade?
—Verdade, verdadinha!

 

 

 

 

Dona Maria Teresa pergunta-me então se eu também quero ouvir a sua...


—Claro que quero ouvir!


E vai ela:


«A flor no baldio
Bota rosa quando quer.
É como rapaz solteiro
Enquanto não tem mulher.»

Magnífico!

 

PITÕES DAS JÚNIAS
Julho de 2006

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 
 
 
 

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