ANTERO DE ALDA NORDESTE TRANSMONTANO      

   FILMES  |  NOVAS FOTOGRAFIAS

 mús. PAULITEIROS DE MALHADAS La Yêrba, 1997

 

Festa dos Rapazes, dos Velhos ou do Santo Menino

Fotografias desde 2006  SLIDESHOW

 

 

 

 

 

 

 

 

 

«Os rapazes assim metamorfoseados são os verdadeiros animadores da festa. Tornam-se figuras diabólicas e mágicas, sob a máscara de latão pintado ou de madeira, o colorido dos seus fatos, com fitas, campainhas e chocalhos à volta do corpo. São os 'caretos', dificilmente identificáveis, se não de todo impossível, a quem toda a sorte de disparates, tropelias e brincadeiras lhes é permitido fazer. O mascarado torna-se um ser superior, mágico e profético, diabo e sacerdote ao mesmo tempo.»

 

   António Pinelo Tiza

   Inverno Mágico - Ritos e Mistérios Transmontanos

   (Ed. Ésquilo, Lisboa, 2004)

 

 

 

 

 

Já foi o Natal!

De 27 para 28 de Dezembro correu uma noite de folia em honra de S. João Evangelista, padroeiro da freguesia. Os rapazes, ávidos de gozação, estipularam o dia em volta da gigantesca fogueira que ainda fumega no largo do lugar. Assim, logo pela madrugada, vestem o carocho com uma máscara de couro, um rosário de carretos de linhas — já vazios — pelo pescoço e um enorme garfo de madeira que há-de recolher os salpicões ou fazer tropeçar as raparigas da aldeia. Juntam-se-lhe velhos gaiteiros, tocadores de bombo e de fraita (flauta pastoril, cinzelada na madeira) e os dançadores com seus chapéus decorados com rosas: os pauliteiros de Constantim!

 

 

   

 

 

 

Desejosos pelo prolongamento da festa, percorrem todas as casas, uma a uma: comem e bebem, dançam a pedido e lançam a lascívia do careto sobre as filhas virgens do lar. E, porque na agonia do ano velho tudo se perdoa, trocam-se prendas e cumprimentos. A falsa fêmea do grupo da folgança (a tiê vielha, de blusa de chita estampada e com um rosário de castanhas assadas pelo pescoço) vem despedir-se da dona da casa, enquanto o chefe da família tem direito a lançar um foguete, que há-de dar sorte para o novo ano.

 

 

À meia para a duas da tarde há missa. O profano dá lugar ao sagrado, mas a gaita soa com um lhaço divino dentro do lugar santo. Os pauliteiros dançam na hora do ofertório. Depois da procissão à volta da igreja, o ritual da mesclagem entre o sagrado e o profano cumpre-se mesmo ali, em frente do cruzeiro, com o carocho e a tiê vielha ensaiando gestos de acasalamento.

 

 

Tudo não passa de uma cena de Carnaval de Inverno (um rito do solstício) em Costantin, terras de Miranda. E como diz o povo, «Ne Antruido fázen uas macadas que a la giente dá-le ua risa mui grande».

 

 

A história de Fábia

Em Constantim as mulheres são prendadas. Júlia é especialista em feijoadas e Felisbina Rosa em chás. Fábia do Nascimento Gonçalves tem 78 anos e também já foi à televisão: fazer bolos é a sua especialidade.

 

Enviuvou grávida, depois de seis meses de casamento. O marido faleceu a lançar um foguete. Nas festas de S. João Evangelista aceita os tremoços e as azeitonas e paga aos pauliteiros para dançarem um 'Lhaço' à porta da sua casa, mas não quer que se lance o foguete como é da tradição.

 

Criou o filho sozinha. Muitos homens se insinuaram, mas nunca quis conhecer mais ninguém: segundo diz, é a viúva mais séria da freguesia. Quase uma vida inteira vestida de negro.

 

Festa dos Rapazes

Constantim, MIRANDA DO DOURO

 

 

 

 

 

Os adolescentes carregam grandes bexigas de porco atadas na ponta de varapaus para provocar os mais velhos. Do desafio resultam demoradas perseguições que acabam em acesas disputas entre novos e velhos, num ritual de passagem à idade adulta.

 

No seu passeio pela aldeia o Soldado tanto oferece como protege a Sécia (a mulher, que traz uma boneca ao colo), e às provocações do povo — «Maria, vais com todos, sua galdéria!» — responde com fortes açoites de cinturão de couro para defender a honra.

 

Do casal de Velhos que compõem as quatro figuras do cortejo espera-se que imponha respeito. Com os seus cajados vão limpando as ruas das bexigas que sobraram da violência dos confrontos.

 

A festa, repetida todos os anos no Dia de Natal, termina com o arrematar das oferendas recebidas para o altar de Nossa Senhora.

 

Festa dos Velhos

Bruçó, MOGADOURO

 

 

 

 

 

São sete e meia da manhã. O diabo solta-se e dá uma primeira volta pela aldeia à procura de raparigas solteiras. Parece um rei negro com uma coroa branca e preta na cabeça, um casaco cinzento vestido do avesso, uma saia escura e comprida, um colar de carrinhos de linha vazios pelo pescoço e pela mão um pau de ponta bifurcada para apanhar os enchidos nas casas onde consegue entrar.

A Sécia veste-se de noiva, de manto branco rendado na cabeça e pela mão um ramalhete de guloseimas com uma tangerina espetada no topo. Nas diversas investidas até à hora da missa é o Moço que a defende da cobiça e da volúpia do Farandulo...

O Mordomo e os Tamborileiros (gaita de foles, bombo e caixa) compõem o grupo de foliões.

 

Festa do Santo Menino ou do Furandulo

Tó, MOGADOURO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aldeias de Miranda do Douro

Miranda yê la mie tiêrra

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VIDEO STORY 2'25

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Costantin, outra terrica

Mirandesa, eilhi al pie,

Ten un cabeço i ua Santa

Cun feira i remarie...

 

Spanholes i pertugueses,

Nun sei quantas bezes mil,

Juntan-se eilhi, nun deimingo,

L redadeiro de Abril.

 

Cun muita fé ou cun pouca,

Ban un deimingo a passar,

Para cumprir deboçones

Ou a bander ou cumprar.

 

A fazer meia ou na renda,

An tardes de sol, sarenas,

I quien sabe se a las bezes

Falando an bidas alhenas...

 

 

Citações do Mirandês de «Miranda Yê La Mie Tiêrra»

JOSÉ FRANCISCO FERNANDES

Ed. autor, 1998.

 

 

 

 

Genísio

La Lhienda de la Boubielha

 


Cierto die, hai muitos anhos, las pessonas de Zenízio bírun un páixaro mui guapo que tenie un cuculho na cabeça. Esse páixaro era la Boubielha.


Confundindo-lo cun Nuossa Senhora, juntórun-se todos a la boç de 1 regidor i na reberência a la Birge de la Coquelhuda (pus assi chamórun a l’abe), fúrun stendendo lhençoles i telas de lhino brancos, para que assi pousasse e benisse pa l’eigreija, dezindo:
— Senhora de la Coquelhuda, pousai na branco!


Mas l’abe, por su beç, bolaba de arble para arble, até que de l’alto dun uolmo cantou:

— Bu, bu, bu! Bu, bu, bu! Bu, bu!...


De boca abierta i delorosa, de zinolhos no chano, la giente de Zenízio

respundie:
— Ah, Birge de la Coquelhuda, nun bos merecemos! Chamai-nos

burros i nós que l somos.
 

Desde para lantre, ls habitantes de l pobo de Zenízio passórun a ser

coincidos por boubielhos, nun gustando mesmo nadica de l nome. Mas la lhienda tem muita fuórça!

Cousas de nuossos abós!

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