«Ne Antruido fázen uas macadas que a la giente dá-le ua
risa mui grande».
Já foi o Natal!
De 27 para 28 de Dezembro correu uma noite
de folia em honra de S. João Evangelista, padroeiro da freguesia. Os
rapazes, ávidos de gozação, estipularam o dia em volta da gigantesca
fogueira que ainda fumega no largo do lugar. Assim, logo pela madrugada,
vestem o carocho com uma máscara de couro, um rosário de carretos de
linhas, já vazios, pelo pescoço e um enorme garfo de madeira que há-de
recolher os salpicões ou fazer tropeçar as raparigas da aldeia. Juntam-se-lhe velhos gaiteiros, tocadores de bombo e de
fraita (flauta
pastoril, cinzelada na madeira) e os dançadores com seus chapéus decorados
com rosas: os pauliteiros de Constantim!
Desejosos pelo prolongamento da festa,
percorrem todas as casas, uma a uma: comem e bebem, dançam a pedido e
lançam a lascívia do careto sobre as filhas virgens do lar. E, porque na
agonia do ano velho tudo se perdoa, trocam-se prendas e cumprimentos. A
falsa fêmea do grupo da folgança (a tiê vielha, de blusa de chita
estampada e com um rosário de castanhas assadas pelo pescoço) vem
despedir-se da dona da casa, enquanto o chefe da família tem direito a
lançar um foguete, que há-de dar sorte para o novo ano.
À meia para a duas da tarde há missa. O
profano dá lugar ao sagrado, mas a gaita soa com um lhaço divino dentro do
lugar santo. Os pauliteiros dançam na hora do ofertório. Depois da
procissão à volta da igreja, o ritual da mesclagem entre o sagrado e o
profano cumpre-se mesmo ali, em frente do cruzeiro, com o carocho
e a tiê vielha ensaiando gestos de acasalamento.
Tudo não passa de uma cena de
Carnaval de Inverno (um rito do solstício) em Costantin, terras de Miranda.
E como diz o povo,
«Ne Antruido fázen uas macadas que a la giente dá-le ua
risa mui grande».
Citações do Mirandês
de
«Miranda Yê La Mie
Tiêrra»
JOSÉ FRANCISCO FERNANDES
Ed. autor, 1998.
Genísio
La Lhienda de la
Boubielha
Cierto die, hai muitos anhos, las pessonas de Zenízio bírun un páixaro mui guapo que tenie un cuculho na cabeça.
Esse páixaro era la Boubielha.
Confundindo-lo cun Nuossa Senhora, juntórun-se todos a la boç de 1 regidor i na reberência a la Birge de la Coquelhuda (pus assi chamórun a
l’abe), fúrun stendendo lhençoles i telas de lhino brancos, para que assi pousasse e benisse pa l’eigreija, dezindo: — Senhora de la Coquelhuda, pousai na branco!
Mas l’abe, por su beç, bolaba de arble para arble, até que de l’alto dun uolmo cantou:
— Bu, bu, bu! Bu, bu, bu! Bu, bu!...
De boca abierta i delorosa, de zinolhos no chano, la giente de Zenízio
respundie: — Ah, Birge de la Coquelhuda, nun bos merecemos! Chamai-nos
burros i nós
que l somos.
Desde para lantre, ls
habitantes de l pobo de Zenízio passórun a ser
coincidos por boubielhos,
nun gustando mesmo nadica de l nome.
Mas la lhienda tem muita fuórça!