som de entrada "Os reis" (Chaves, 1986) | slideshow HÄNDEL "Messiah"

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OS POBRES NÃO TÊM FÉ...

Os pobres não têm fé...

 

«Olhe que ainda agora vim do monte com oito vacas e um boi tourão e quase vinte cabeças de rês e um jumento. A jumenta hoje não foi, que ele foi buscar uma carrada de milho com ela. E logo tornam a sair às 4 e meia/5 horas para o monte. Vêm depois às 8 horas para casa outra vez. Ainda ando com elas quase todos os dias. Ainda cheguei há pouco com elas. Foi ele... andamos a meter nas lojas, porque algumas estão paridas, têm os vitelos pequeninos, há lá um que já tem um vitelo para aí de 4 meses. Agora andam próximas mais a parir outra vez. Parem agora todas por aí fora... Temos o boi tourão... Temos tudo...»

DANIEL RUA

Arcos de Cervos, Montalegre

Agosto de 2010.

27 AGO 2010 0'46''

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Em Vilar de Perdizes, a poucos quilómetros de Montalegre, o Padre António Fontes pode estar a fazer uma das suas últimas visitas pascais. Em tempos passados as pessoas recebiam o 'Compasso' com tapetes de flores, mas agora já são poucos os que abrem as portas para beijar a cruz.

 

Ali perto, em Pedrário, a bonita igreja de estilo românico mantém-se fechada. Nesta aldeia, a visita pascal já só se realiza de dois em dois anos.

 

Albina Teixeira não vai à missa, que se realiza na aldeia vizinha de Sarraquinhos. Já perdeu a conta aos anos que viveu e está prestes a perder também a fé...

PEDRÁRIO E VILAR DE PERDIZES Montalegre, Abril de 2009.

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DINHEIRO DO VENTO...

Dinheiro do vento...

 

 

Já quase não há gado. Nem linho, nem lã, nem roca. Agora a gente negoceia com o vento… As eólicas estão espalhadas por toda a montanha.

 

Nos campos em volta da pequena capela de Santo Isidro, no alto da Pena Franga, bem à vista dos três cornos do Barroso (os majestosos cabeços que o diabo desenhou na montanha com a forma de chifres de bovino), junta-se grande parte do gado da aldeia para ser benzido durante a procissão ou simplesmente para cumprir promessas devidas por louvores recebidos, porque aqui o povo ainda tem fé.

 

O padre auxiliar, antigo missionário em África que decidiu calcorrear estas serras desde Viseu, faz o elogio do santo lavrador e da festa simples, e aproveita a oratória para avisar sobre os males da cobiça e da avareza: «Vejam o que se passa no nosso país, assaltado por uma onda de corrupção sem fim, envolvendo grandes políticos e banqueiros que não hesitam em vender a alma para fazerem fortunas incríveis à custa do suor dos pobres.»

 

Adivinha-se do sermão da missa de Pentecostes que o povo já não teme somente os males naturais (os fenómenos que mais impressionam a fantasia do homem: o fogo, o relâmpago, o furacão, o terramoto, os trovões... Ezeq. 37, 1-14), usados na Bíblia para contar as manifestações de Deus...

SANTO ISIDRO Alturas do Barroso, Maio de 2009.

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VILA NOVA: A CELEBRAÇÃO DA PRIMAVERA

Carnaval em Vila Nova: a celebração da Primavera

 

 

Em Vila Nova, no Barroso, a Primavera dá-se numa folha de carvalho: a oferta é levada de casa em casa e entregue em mão pelas crianças — os duendes —, que circulam entre mostrengos, velhas desconfiadas que vestem de preto, carneiros, javalis, lobos, corujas e muitos outros animais da fauna local que povoam as lendas e os contos dos antepassados.

 

Nesta aldeia escondida numa encosta sombria entre o Cávado e o Rabagão, às portas de Sidrós, no Gerês, e muito perto da Misarela (a famosa ponte que tem fama de boa parideira e onde Deus se cruza com o Diabo para resgatar as almas), há ruas e casas às quais o sol não chega durante três longos meses do ano.

 

Tânia, escolhida entre as mais vistosas e simpáticas raparigas da freguesia, veste para este ritual carnavalesco a indumentária principal, com motivos fitomórficos: raízes, musgo, caules, folhas e flores, celebrando o fim do Inverno, dos tempos da abstinência da terra e das fracas colheitas. Chamam-lhe Primavera.

CARNAVAL EM VILA NOVA Montalegre, Fevereiro de 2010.

 

 

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CIPRIANO MARTINS E JOSEFINA SEARA

Vilarinho de Negrões: Cipriano Martins e Josefina Seara

 

 

Cipriano lava a louça. Sentada no banco em frente da lareira, a sua esposa, Josefina, espera pela ambulância que a irá levar ao hospital mais próximo, a cerca de 60 km de distância; ela teve há pouco tempo um acidente vascular cerebral que a deixou paralisada. A ambulância pode vir hoje, ou depois de amanhã ou só na próxima semana.

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«Deve-se estar sempre bêbado.

É a única questão.

Afim de não se sentir o fardo horrível do tempo,

que parte tuas espáduas

e te dobra sobre a terra.

É preciso que te embriagues

sem trégua.»

BAUDELAIRE

 

«Ele brada cravem mais fundo na terra vocês aí cantem e toquem agarra a arma na cinta brande-a seus olhos são azuis cravem mais fundo as pás vocês aí continuem tocando para dançar.

Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos de noite nós bebemos bebemos…»

Fuga da morte

 

«Ela sabe as palavras mas limita-se a sorrir. Mistura o seu sorriso no cálice de vinho: Tens de o beber, para estar no mundo.»

Sete rosas mais tarde

PAUL CELAN

 

 

 

 

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