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Cipriano é marido de Josefina. Quando o encontrei estava a dormir em cima
do carro do burro, debaixo do alpendre. Mas os seus olhos não são da sesta
nem do súbito despertar: um acidente tirou-lhe uma vista quando ainda era
novo e as cataratas vão-lhe minando a outra. Se não se tratar, dentro em
pouco poderá ficar completamente cego.
«Deve-se estar sempre bêbado.
É a única questão.
Afim de não se sentir o fardo horrível do tempo,
que parte tuas espáduas
e te dobra sobre a terra.
É preciso que te embriagues
sem trégua.»
BAUDELAIRE
«Ele
brada cravem mais fundo na terra vocês aí cantem e toquem
agarra a arma na cinta brande-a seus olhos são azuis
cravem mais fundo as pás vocês aí continuem tocando para dançar
Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos de noite nós bebemos
bebemos…»
‘Fuga da morte’
«Ela sabe as palavras mas limita-se a sorrir.
Mistura o seu sorriso no cálice de vinho:
Tens de o beber, para estar no mundo.»
‘Sete rosas mais tarde’
PAUL CELAN
Josefina Gonçalves Seara foi a primeira a ver-me: estava a comer um
iogurte. Cumprimentou-me, sorriu, olhou para o marido que estava por baixo
do alpendre e disse:
«Acorda, Cipriano, que está aqui um senhor que te quer tirar o retrato!»
Logo
que me viu, Cipriano sentou-se e começou a dar palmadas na cara para
apanhar as moscas: esmagava-as meticulosamente escorregando os dedos sobre
a palma da mão e depois deixava-as cair, moribundas, para o chão.
Regresso a Vilarinho
Reencontro com
Josefina e
Cipriano
Nov2007

Cipriano lava a louça.
Sentada no banco em frente da lareira, a
sua esposa, Josefina, espera pela ambulância que a irá levar ao hospital
mais próximo, a cerca de 60 km de distância; ela teve há pouco tempo um
acidente vascular cerebral que a deixou paralisada. A ambulância pode vir
hoje, ou depois de amanhã ou só na próxima semana.
No interior norte de Portugal os serviços
médicos são racionados: as pequenas urgências estão a ser encerradas, como
os centros de saúde e as maternidades.
Cipriano também está doente: praticamente
cego, sofre agora de dores nas pernas.
Há pouco mais de um ano
atrás, quando os visitei pela primeira vez, estavam com mais saúde e mais
bem dispostos.
EPÍLOGO
Cipriano e Josefina partiram com os
filhos para França em Junho de 2008.
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