
© joão veríssimo
A CRUZADA DAS CRIANÇAS
Não queremos saber da religião
das tuas palavras,
nem da tua ideia do Céu e do Amor.
Mentes se dizes
encontrar os teus deuses nas estrelas,
quando os guardas
e serves no perímetro do teu bolso.
Dizes o quanto choras a morte
e compreendes a dor
de quem chamas teus filhos,
mas rebentas com o seu sangue
a brancura
implorada das bandeiras,
acreditas na ceifa das espingardas
e dos berços.
Alimentas crianças com o leite
das armas ao gritar:
«Esforcem-se por carregar no gatilho!
Por honrar
um só uniforme,
uma só cor da vossa bandeira.
A vermelha!»
Dizes-lhes do Amor,
com palavras mercenárias,
a soldo do ódio.
E elas cantam-nas num hino
de louvor
a uma pátria desertora!
E elas sabem
que não as aceitas prisioneiras,
enquanto marcham
para a linha da frente e caminham
sobre um campo de minas.
A teu pedido
ou às tuas ordens?!
JOÃO VERÍSSIMO
Da série «A Infância Exultada»
Amadora, 2006.

















