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POST SCRIPTUM: Morreu a Dona Rosa, a "minha" Rosa!
Ela, que era também já uma transfiguração completa de Torga, sabia que o
trabalho não mata (mas também não liberta) e que o dinheiro é uma
droga.
A Rosa fez 93 anos no passado dia 25 de Abril.
Há duas semanas atrás fui oferecer-lhe uma rosa vermelha, como fazia
de vez em quando: comprava sempre duas, uma para ela e outra para
a Margarida.
Fotografei-a muitas vezes (para Mil vidas tem S. Gonçalo,
para Retratos & transfigurações... ou simplesmente para
ir oferecer-lhe mais um retrato, no caminho da Torre que vai ter ao
rio), mas é quase certo que a última
vez que ela foi fotografada foi pelo meu filho Zé; e — curiosamente —,
como quem vem da missa em S. Gonçalo, assim ficaram, a Rosa e a Margarida,
ambas de preto, lado a lado. À sua maneira, o meu Caravaggio
tinha o seu fascínio por esta mulher, como se ela saltasse de uma das telas
que ele colecciona com o olhar: a Madalena lacrimosa de Rembrandt, a
penitente de Giordano, a mãe e esposa de Cranach...
No sábado o meu computador avariou e eu decidi que hoje iria passar um
domingo fantástico a pintar a casa. Foi o que fiz, até receber a
notícia.
Não estou preocupado com o meu computador, talvez consiga mexer
alguma coisa no hardware. Aliás, também não estou preocupado com mais um
crash: fiz há dois dias um backup, como é meu costume
— triste é aquele que não faz backups!
Assim, quando me preparava para «um dia de Primavera no fim do
mundo» (Li Shang-Yin), quando poderia dizer outra vez:
«não há defeito algum neste dia/é o exacto momento para por/o amor
ao sol» (1.5.2014), aconteceu esta coisa triste.
Logo, às 15 horas, vou levar-lhe mais uma rosa vermelha à igreja de
S. Pedro. Depois, sempre que regressar ao caminho da Torre até
ao Tâmega, vou ouvi-la a agradecer-me com toda a sua bondade:
"Senhor professor eu não mereço isto"; ou então a dizer-me coisas
banais: "O senhor professor tem um carro
muito bonito"; ou a dar-me conselhos irrepreensíveis: "senhor professor,
guarde bem a sua Margarida. O meu marido morreu quando eu tinha 57
anos... Nunca mais o esqueci. Nunca conheci nenhum outro homem."
ai Rosa...
as tuas
pétalas as tuas
lágrimas.
as tuas
rugas
os teus
amores.
ai Rosa...
os teus
partos
as tuas
dores.
e as tuas
dúvidas.
as tuas
dúvidas, Rosa
as grandes
dúvidas:
terra,
raízes
as dúvidas
de todos
as dúvidas
de todos!
diz-me, Rosa
(todas as
flores)
porque é que
eu estou
tão cansado?
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