Durante as longas e chuvosas noites de Inverno quando
o ventou uiva lá fora, minha mulher e eu jogamos às
cartas. Jogamos em completo silêncio com os nossos
corpos por aposta.
Mais ou menos meia hora depois, considero que já
perdi o suficiente e levanto-me dizendo calmamente:
«Não joguemos mais. Já não tenho mais nada a apostar.
Já perdi todo o exterior do meu corpo. O interior
quero guardá-lo.»
Mas a minha mulher nunca consente isso. Ameaçadoramente
obriga-me a continuar o jogo. E só paramos de jogar
quando eu perco o meu corpo todo. Só as minhas
doenças — dores de cabeça, constipações e todas as
minhas febres — ficam do meu lado da mesa.
Essas noites são de facto bastante tristes.